O prazer do estraga-prazer parte 1
Churras na quadrinha! A galerinha mal começava a se divertir. Nada de equipamentos-amplificadores-sonoros e o batuque com pandeiro e agogô nem sonhava em se instaurar...
As crianças, ainda pilhadissimas, por sua vez, corriam de um lado para outro nonstop soltando gritos e gargalhadas típicas das brincadeiras infantis. O churras comemorava um encontro despretencioso, ou nem tanto, de amigos... solteiros de nascença ou reconvertidos à solteirice (algo bem comum os tempos de hoje) daí a presença quase maciça de crianças no churras. O motivo maior do evento era promover encontro com uma amiga de Emengarda, a anfitriã, que mora há vários anos na França. Ela e seu filho estavam de férias no Brasil.
Dado momento fui ao banheiro. Ao voltar encontrei a festinha bem esvaziada. Tentando entender o que havia acontecido em tão curto espaço de tempo fui informada:
- O pessoal ta lá fora. Chamaram a polícia.
Nuooossa!!!! Polícia pra uma reuniãozinha tão familiar e singela?!! Como assim?!!!
Ficamos eu e mais uns três trocando idéia lá dentro enquanto a dona da casa e mais meia festa resolviam a pendência policial.
Logo passa correndo uma das convidadas. Pergunto o que foi. A resposta:
- Vou pegar refrigerante pros guardas!
Um amigo que estava conosco, diga-se de passagem, um sujeito divertidíssimo que, assim como eu, “perde o amigo, mas não perde a piada” falou:
- Vou lá fora dar uma olhada.
Não demorou 3 minutos ele estava de volta comentando:
- Melhor eu ficar aqui dentro. (pergunto o que houve). Mal cheguei e já dou de cara com o policia dizendo “ah, eu sei! A França é aquela parte azul do mapa”. (????) Acabei soltando um “que eu saiba a parte azul do mapa é o oceano!” . Não dá! Melhor eu ficar por aqui!
Vi que as coisas estavam tranqüilas... e bizarras! Resolvi ir dar uma assuntada. Mas antes de narrar a cena com a qual me deparei deixa eu recuperar o relato do ocorrido enquanto eu estava no banheiro:
Uma explicação necessária. Trata-se de um terreno com diversas casas. A Emengarda ocupa uma com seu filho, a mãe dela (proprietária) ocupa outra e há cerca de três ou quatro inquilinos que ocupam as casas do fundo.
Toca a campainha. A mãe de Emengarda atende a porta. Dá de cara com uma viatura e dois policiais:
- Boa noite. Por gentileza a Sra. Emengarda.
- Pode falar. Eu sou a proprietária da casa, mãe dela.
- É que temos uma denuncia contra a Sra. Emengarda...
São interrompidos por Emengarda já meio bêbada que sai, vai até a viatura e começa a dizer:
- Cadê o Petrônio? Petrôoonio? Cadê você? (rodeando a viatura, olhando por entre a janela e quase a ponto de abrir o porta-malas)
Legenda: Emengarda esperava na festa, seu amigo Petrônio que era policial. Ao se deparar com o bizarro de uma viatura em sua porta em uma festa nada barulhenta, deduziu que Petrônio estava escondido pregando-lhe uma peça... Esclarecido que não se tratava de uma troça de Petrônio, segue o diálogo:
- Sra. Emengarda, estamos aqui porque recebemos uma denúncia de que havia uma festa incomodando a vizinhança... mas... nem tá tanto barulho assim...
Disse o policial com ar de que já sabia que se tratava de algum daqueles despeitados que sentem prazer em estragar o prazer alheio. Emengarda perguntou quem era o denunciante, o que obviamente não foi revelado pelos policiais, mas que, também, ela obviamente ela já sabia. Tratava-se de um inquilino de sua mãe com ordem de despejo anunciada. Ela explica ao policial que se tratava de uma reuniãozinha por conta da amiga que mora na França, etc, seguida de bate-papo sobre a França e refrigerante como já relatado.
Volto ao momento em que cheguei no portão. A cena que encontrei me fez dar meia volta quase que imediatamente, com medo de começar a rir ali mesmo. Uma galera, crianças correndo um bate-papo entusiasmado e um policial com um copo de refri e o outro com um espetinho na mão. Em seguida, le petit-français vai à barra da saia da mãe e solta algo do tipo:
- “mère je veux enlever photographie avec la police”
Ops... meu francês é um lixo, mas photographie avec la police eu entendi... Meia volta Mairinha... senão não vai prestar... ao me afastar ouvia o povo organizando a foto vocês ficam aqui pra tapar o número da viatura...
Depois de um tempo, Emengarda entra na casa e passa por nós com um bloquinho de notas... comenta: le petit-français pediu autógrafo para a polícia...
Várzea total! Mas o menino ficou feliz, feliz não, radiante! Em seguida, ele correu a festa inteira mostrando a folhinha de papel com o tal autógrafo em que havia ainda desenhado os dois policiais de mãos dadas com ele no meio...
Surreal...
O mais surreal é que depois o tal do vizinho estraga prazeres ainda ligou na delegacia caluniando os policiais dizendo que eles tinham ficado lá tomando cerveja, pode? Foi só um copinho de refri e um par de espetinhos! Haja prazer em estragar o prazer alheio!
Escrito por marocha às 18h29
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